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Olhares Urbanos - colecionando sentimentos e almas

Categoria: Portfólio Publicado: Sexta, 30 Janeiro 2015

Fotografia de rua, olhar, poesia e alma

"De quem é o olhar
Que espreita por meu olhar ?
Quando penso que vejo
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando ?"
( Fernando Pessoa )

Olhares urbanos, olhares diretos.

O olhar é um sentimento, um vislumbre da alma, mas seu significado é sempre misterioso.

(Artigo publicado originalmente na Coluna Fotocultura da Revista EVF em março de 2015)

A maioria das pessoas, quando anda por uma rua, simplesmente está indo a algum lugar, e a rua nada mais é que uma distância a vencer. Mas o fotógrafo de rua vê esse caminho de uma forma muito diferente, ele vê os momentos que lhe permitirão fazer suas fotos, sua arte. É como o poeta, que usa as mesmas palavras que usamos para a simples comunicação, para fazer emergirem sentimentos profundos, dele e nossos, para criar arte. O poeta parece acessar um outro nível da linguagem, que só chegamos com a ajuda dele, e o fotógrafo de rua percebe outros níveis de acontecimentos na cidade, que outros só percebem através de suas fotos. 

Quando ando pelas ruas de uma cidade, como por exemplo São Paulo, minha cidade, percebo aspectos diferentes dos percebidos pela maioria das pessoas, percebo como as construções, objetos e pessoas se relacionam, como se eu acesse novas camadas de informação, geralmente despercebidas. Mas isso deve ocorrer com qualquer fotógrafo, pelo menos depois de um tempo praticando.

Mas eu comecei a prestar mais atenção em um aspecto em particular, o olhar. Comecei a suspeitar que o olhar revela muito, ou melhor, sugere muitas coisas. É o olhar do outro, justamente, o que nos permite acessar, ou pelo menos vislumbrar, uma camada ainda mais profunda do ser humano, a dos sentimentos. Mais ainda, o olhar é o mais próximo que podemos alcançar da alma alheia. Não sei se consigo explicar isso, mas às vezes, a poesia pode explicar algumas coisas muito melhor: 

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.
(Fernando Pessoa, 1934) 

Comecei a buscar, na cidade, esse olhar, o olhar que pareça estar dando acesso a algo mais, ou até escondendo algo, o olhar com gestos, expressões, que se não mostra, sugere. É como se eu buscasse, ao fotografar, colecionar sentimentos em forma de olhares, e até, por que não, almas. 

A fotografia de rua é uma forma de olhar a cidade, tentar entendê-la, mostrá-la, fazer arte a partir dela. Há várias formas de ver, entender e captar a vida na cidade. Eu escolhi o olhar, pois é o que me parece levar um pouco mais fundo no ser Humano.

Assim como a fotografia tenta organizar o mundo-caos, formado por infinitas imagens (Sontag, 1981), ao criar imagens únicas, pegadas e sinais de algo, mas não a coisa em si, busco, ao captar o olhar, encontrar uma (falsa) organização para o caos de olhares, sentimentos e almas que me rodeiam. 

Ao mostrar algum sentimento, como por exemplo a indiferença, a fotografia na verdade cria um novo sentimento, diferente para cada espectador, mas que traz uma ordem, mesmo que falsa ou superficial, a um mundo repleto de infinitos sentimentos.

Essa busca pelo olhar também envolve uma aceitação do comum, do cotidiano. Não é uma busca pelo raro, pelo inusitado, por uma beleza simples e conhecida, mas sim pela beleza no dia a dia das pessoas comuns. Ao sair para as mesmas ruas, ou para ruas desconhecidas, pretendo curtir a cidade como esta é, ver sua beleza, sem entender ou justificar, e captar algo que as pessoas me oferecem, seu olhar. 

Esta série é composta por fotos feitas com o celular, na maioria, e todas foram tratadas e postadas via celular:

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Apenas depois de conhecer a Fotografia Contemplativa (tema sobre o qual falarei em breve) pude entender o poema de Fernando Pessoa que repito aqui: 

"De quem é o olhar
Que espreita por meu olhar ?
Quando penso que vejo
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando ?"
( Fernando Pessoa )

Confundimos olhar e pensar, mas são atos diferentes. Quando realmente olho, não penso, e se pensar, deixo de olhar realmente. Daí a perplexidade do poeta em perguntar, nesse caso, quem está olhando enquanto penso? 

Então, para mim, o olhar se tornou um novo caminho para explorar a minha cidade, ou outras cidades que visito, me levando pelas ruas, mas além delas, por um caminho mais profundo, dos sentimentos, da alma. Porém, ao ver minhas fotos, você provavelmente verá coisas diferentes do que eu vi nelas, ou até não verá nada. O caminho que você percorrerá será outro, mas também é caminho, e se você se perder… “Se perder também é caminho”! (Clarice Lispector).

O importante é que a imagem traga algo, além da superfície. O olhar pode trazer essa sugestão de sentimentos, mas também pode captar quem o vê e puxar algum sentimento do espectador. O olhar pode dar, então, uma nova dimensão a uma foto, algo que saia do papel ou da tela e se conecte com o olhar de quem olha a foto, que por sua vez recria, ou cria novas, histórias, sugeridas pela realidade fragmentada da foto. O que se vê na foto então é real, mas é inventado, é do fotógrafo, do fotografado, mas principalmente de quem vê. 

“As imagens revelam seu significado quando ultrapassamos sua barreira iconográfica; quando recuperamos as histórias que trazem implícitas em sua forma fragmentária"
(Kossoy, 2005).

Esses são os meus Olhares Urbanos, e os seus?

Até a próxima Coluna Fotocultura!

Referências:

KARR, Andy e WOOD, Michael. The Practice of Contemplative Photography: Seeing the World with Fresh Eyes. Shambhala Publications, Boston, 2011.

KOSSOY, Boris. O relógio de Hiroshima: reflexões sobre os diálogos e silêncios das imagens. Revista Brasileira de História, vol. 25, núm. 49, janeiro-junho, 2005, pp. 35-42, Associação Nacional de História – Brasil

SONTAG, Susan. O Mundo-imagem. in Ensaios sobre a fotografia, tradução de Joaquim Paiva. Editora Arbor, Rio de Janeiro, 1981.

 Veja a série completa: Olhares Urbanos no Flickr

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