A beleza que está no caminho - sobre a Fotografia Contemplativa

  • Imprimir

Fotografia Contemplativa

Penso que na "fotografia normal" se busca observar o conjunto, pois há um objetivo, um fim. Na "fotografia normal" importa o resultado, não como se chega a ele, busca-se uma boa foto, se o caminho para isso for agradável, melhor, mas não se exige. Tudo isso de um modo geral, claro. É preciso esclarecer que isso não é uma crítica a nenhum tipo de fotografia, apenas uma sugestão de uma atividade com outros objetivos, como a busca pelo bem estar. 

Na fotografia contemplativa é diferente, quase o oposto. Não centramos no resultado, mas no fazer. Como uma prática contemplativa, o objetivo é o exercício de contemplar, de estar presente, conhecer o momento, viver intensamente o agora. Se a foto ficar boa, ótimo, se não ficar, tudo bem. 

A fotografia contemplativa portanto é o caminho, não o fim.

Nesse caminho tentamos destravar um outro olhar, não aquele olhar que busca o melhor, o útil, o considerado bom, mas um olhar que busca apenas conhecer, estar. Nesse processo um possível exercício é perceber os aspectos visuais separados. Vamos listá-los: 

  • Cor

  • Textura

  • Forma

  • Luz

  • Espaço

Há outros aspectos do mundo visual, mas basicamente são esses. 

Então o objetivo de fazer fotografia contemplativa não é a boa foto no final, mas se demorar no processo. Por isso não separamos esses aspectos para entender melhor (como na ciência), mas na verdade vamos a um de cada vez para nos demorar mais, para permanecer mais tempo no caminho. 

Um descrição simples mas profunda da fotografia contemplativa seria: 

Uma forma de demorar-se nos detalhes, permanecer mais tempo no olhar e adiar o julgamento. 

Fazer a fotografia contemplativa pressupõe três passos (veja com mais detalhes aqui: http://www.fotografiacontemplativa.com.br/artigo02.html

Passos:

A)Flash de percepção - É um instante em que a visão é clara e profunda. É o momento exato que olho e mente se alinham, uma pausa no processo racional. Isso ocorre com todos e sempre. O desafio é reconhecer esse lampejo da percepção. É preciso estar disposto e aberto para poder reconhecer o flash, caminhar em direção à calma e imobilidade é essencial. Temos que aprender a apreciar o cotidiano, e saber que o flash será repentino e irá quebrar nossa rotina, é preciso deixar isso ocorrer. Exemplo: imagem no reflexo do monitor ou TV.

O “Flash” é como uma epifania. “Obviamente, uma epifania não pode ser criada, ela simplesmente acontece, um ato de graça, acidente e transformação — no entanto, é o trabalho anterior que torna tal “acontecimento” possível. E o que é uma epifania? Diria que é uma mudança repentina da mente, quando a preocupação consigo (e outras formas de preocupação) se dissolve e ocorre um momento quase explosivo de apreciação.” (Scheffel).

B)Percepção visual - Momento de manter o flash, não cair em reflexões e deixar a cena nos guiar. Não sair do presente e não cair em expectativas. Deixar na banguela, não fazer nada. O flash pode ser claro ou não, pense então no que te parou, e não faça perguntas conceituais, tente perguntar sem palavras. As respostas tem que ser visuais. Não rotule.

C)Formando o equivalente - Só pegue a câmera depois de entender seu flash. Devemos fotografar o que vemos, achar na cena o que realmente nos despertou e entender qual composição isso pede.

Fotografia Contemplativa

Vejam então que na fotografia contemplativa não queremos resultados específicos, mas queremos conseguir nos abrir para a experiência, para as descobertas, no fundo não queremos dominar a vida, mas deixar que ela nos leve. Há aqui uma dispensa de controle, e uma apreciação pelo comum, pelo simples, enfim, pelo caminho. 

Ao apreciar o caminho, e não nos preocupar com o fim, acaba a ansiedade e qualquer possibilidade de decepção. 


Referências: 

KARR, Andy e WOOD, Michael. The Practice of Contemplative Photography: Seeing the World with Fresh Eyes. Shambhala Publications, Boston, 2011.

Site: Seeing Fresh - Contemplative photography by Andy Karr

PARA LER MAIS: http://www.fotografiacontemplativa.com.br/artigos.html 

 

* Esta reflexão surgiu a partir de uma aula do meu Curso à Distância de Fotografia Contemplativa. A Fotografia Contemplativa é algo que estamos sempre aprendendo, não há uma formatura, e a cada dia entendemos melhor, as vezes tem dias que sentimos que entendemos menor=s, o importante é ir vivendo e praticando. 

  

Sobre o autor:

Yuri Bittar é fotógrafo desde 1998, designer (Mack) historiador (USP) mestre em Ensino em Ciências da Saúde e doutorando (UNIFESP). É instrutor de Mindfulness certificado pelo Mente Aberta Brasil, praticante de Fotografia Contemplativa desde 2012, tema sobre o qual desenvolve doutorado. Através da história oral, da fotografia, da literatura e outros recursos, tem buscado criar projetos mais próximos ao humano e que contribuam para a melhora da qualidade de vida.

"Acredito que a fotografia pode e deve estar presente no dia-a-dia, como trabalho, como expressão artística e como registro, e ainda como oportunidade para o relacionamento humano, para conhecimento e auto-conhecimento."

Site pessoal: www.yuribittar.com