A literatura me permite organizar a complexidade da vida (ensaio)
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- Category: Laboratório de Humanidades
- Published on Monday, 29 August 2011 10:24
- Written by yuribittar
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Um dos objetivos do meu projeto intitulado “Um Laboratório para a Humanização em Saúde” é entender a importância da literatura na formação, especialmente numa formação humanista e, mais ainda, na área da saúde, e o quanto essa formação pode contribuir para uma humanização do profissional da saúde. Foi nesta busca que meu orientador me indicou a leitura de Literatura pra quê?
De um modo geral o autor deste livro, um renomado professor francês que leciona em Columbia (EUA) e no Collège de France, traça algumas das tradicionais justificativas para a importância da leitura, mas de certa forma as coloca à prova frente às ciências, as novas mídias e a uma certa descrença na literatura, para assim mostrar que, mesmo sem diminuir o potencial dessas outras formas de experiência, como o cinema por exemplo, a leitura de romances, ou da literatura em geral, ainda continua sendo, e deve continuar "sempre" sendo, o lugar da experiência humana mais ampla e profunda, pois nos permite sentir, ou seja, experimentar sentimentos, de um forma muito poderosa.
Até o século XIX não havia uma dicotomia entre ciência e literatura, por isso não era exigida a “prova” de sua importância (p27 e 28). A partir e então surgem diversas defesas da literatura, bradadas por renomados pensadores. Mas o interessante neste livro é que o autor supera a visão clássica de que a literatura é como um remédio, no sentido utilitarista do termo, ou um instrumento cultural e educativo, como definiu La Fontaine (p31), e a justifica, para o mundo do século XXI, mais como um meio de experimentação da vida para além do comum, para além das limitações enormes que a pós-modernidade impõe a cada indivíduo. É a literatura que nos dá palavras para exprimir sentimos que estão em nós, e nem sequer sabíamos sentir, pois não conhecíamos termos para os definir (p38).
Um bom livro nos afeta mais do que filosofia, sociologia ou outras ciências, pois apela também às emoções (p50), e é mais eficaz para esclarecer o comportamento humano (p51) ou transmitir a experiência humana (p46). A literatura consegue mostrar amplitude da vida através do singular e demonstra a ética de uma forma prática (p47).
Para Compagnon a literatura é de oposição, pois nos leva ao questionamento e a reflexão sobre a realidade e a contestar o poder (p34), nos permite a construção de um "eu autônomo” e desenvolve a habilidade narrativa, essencial para a melhor expressão e para organizar a complexidade da vida (p49), e isso tudo permite a quem é leitor gozar melhor a vida (p48).
Não é apenas a literatura que tem esse potencial de unificar a vida, as vezes tão fragmentada, porém um bom romance “deixa toda sua liberdade para a experiência imaginária e para a deliberação moral, particularmente na solidão prolongada da leitura” (p55). Ainda na mesma página o autor diz que “ela não é a única, mas é mais atenta que a imagem e mais eficaz que o documento, e isso é suficiente para garantir seu valor perene”(55). E ainda “o exercício jamais fechado da leitura continua o lugar por excelência do aprendizado de si o do outro...” (p56-57).
Assim a literatura nos permite sair da vida restrita do cotidiano (p36) e passar por experiências mais amplas e também mais profundas e ainda nos dá alguns instrumentos para lidar com a complexidade dos acontecimentos diários.
Nota bibliográfica:
Compagnon, Antoine. Literatura para que? Editora UFMG. Belo Horizonte, 2006


















