A Fotografia em Projetos

Reflexões possíveis para a prática do pesquisador fotógrafo

A fotografia, mais do que nunca, tem presença marcante em diversos projetos. Não nos referimos a projetos propriamente fotográficos, mas sim aos acadêmicos, artísticos, profissionais ou outros, que se utilizam da fotografia de alguma forma, não como um fim, mas como um meio.

Science

Foto: Science, por Yuri Bittar, 2010 - O conhecimento pelo conhecimento ou pelo bem estar do homem? Laboratórios da UNIFESP. Abril de 2010.

O que pretendemos fazer neste artigo é mapear um pouco do que tem sido feito nesse sentido e sugerir alguns passos interessantes que podemos dar para melhorar o seu projeto. Mas é preciso deixar bem claro que a fotografia vem sendo usada de inúmeras formas e vamos apenas mencionar algumas delas.

Iremos tratar aqui da fotografia autoral, ou seja, da realizada pelo próprio pesquisador para ser utilizada em seu projeto, a fim de ilustrar, compor, aplicar em aula ou com sujeitos de uma pesquisa; mas sempre clicada pelo próprio pesquisador autor do projeto, e neste sentido, não estamos falando da utilização de imagens de terceiros.

Fotografia como ilustração

A fotografia é usada para ilustrar projetos, praticamente desde que se tornou uma técnica comercial e acessível. Em estudos de psicologia, por exemplo, já se usa a fotografia desde 1890, sendo que, atualmente, seu uso é intenso. Porém, na maior parte dos projetos, cabe à fotografia ilustrar ou mesmo registrar etapas de uma pesquisa.

Na fotografia abaixo, por exemplo, a função da imagem é registrar um procedimento em detalhes, complementando, assim, o registro por escrito e ilustrando a comprovação dos resultados.

A ciência em detalhe
Foto: A ciência em detalhe, por Yuri Bittar, 2010 - A fotografia é muito importante em pesquisas médicas. Descrever um procedimento apenas com palavras muitas vezes é insuficiente. Detalhe de uma sonda urinária em coelho. Fotografias feitas para o projeto de doutorado de um colega aqui da UNIFESP. Particularmente eu mal posso olhar para essas foto, não por nojo de sangue ou algo assim, mas por ser um animal... Feita com a pequena câmera: Canon Powershot A470 

Era digital

O uso da fotografia no meio acadêmico é crescente, provavelmente devido à popularização de câmeras digitais, computadores e acesso à internet e também pela própria evolução das pesquisas, que pedem mais detalhes e acabamentos cada vez mais elaborados.

No entanto, a fotografia em si, tem sido usada com pouca consciência fotográfica, pouca reflexão e consciência teórica a respeito do que significa uma imagem dentro de um trabalho. Vale considerar que a fotografia pode ser usada como ilustração como, por exemplo, na foto abaixo:

Science x Human
Foto: Science x Human, por Yuri Bittar, 2010 - Laboratórios da UNIFESP, abril de 2010 - A ciência, assim como a arte, a partir do século XX se distanciou do humano, segundo alguns autores como Ortega y Gasset e Boaventura. Ciência e arte então se tornaram praticamente antônimos. Como reaproximar ciência, arte e homem?

Ou até para revelar uma visão diferente de um laboratório:

Science
Foto: Science Lab, por Yuri Bittar - UNIFESP 2010. Nos laboratórios a ciência pulsa... há uma luz diferente, fenômenos acontecem.

Mas também pode ser utilizada de formas mais estruturais em relação ao projeto, comoveremos mais abaixo.

Ter objetivos

A fotografia pode ser utilizada não apenas para complementar, mas também, para integrar o seu projeto. A fotografia utilizada de forma periférica é uma prática já enraizada nos meios acadêmicos e vem ganhando espaço, cada vez mais. Porém, a fotografia usada de forma mais consciente e profunda, ainda parece ser um campo pouco explorado.

O que propomos é o uso da imagem como elemento consciente, como parte integrante de um projeto e como etapa da pesquisa. Claramente, há aspectos da realidade melhor exprimidos por uma fotografia, pois a fotografia também pode causar efeitos interessantes e profundos sobre pessoas.

Além disso, a fotografia traz em si algo de seu autor, de sua visão, assim, pode-se colocar em uma pesquisa algo mais pessoal e original. É muito desejável que em um trabalho acadêmico o pesquisador assuma seu lado humano e mostre seu olhar sobre seu objeto de estudo. A fotografia abaixo, por exemplo, foi realizada no centro de São Paulo, sem objetivo inicial específico, no entanto, passou a integrar o projeto de um curso sobre humanização em saúde, considerando que os moradores de rua são tema importante para a área da saúde. O objetivo de utilizar essa fotografia em aula é sensibilizar os alunos e criar condições para que o tema sobre a vida nas ruas surja nas discussões em sala de aula.

Humanos, sim!
Foto: Humanos, sim!, por Yuri Bittar, 2010 - Alguns participantes estavam fotografando estes homens, logo no começo da saída. Então fui até eles e expliquei o que estávamos fazendo, perguntei se podíamos continuar fotografando, o que eles aceitaram prontamente. A partir desse momento começaram a dar sorrisos fazer pose, etc. ou seja, interagiram com nosso grupo. Creio que foi um momento muito interessante e humano da saída. 15ª Saída Fotocultura - Fotoescambo, em 06/09/2010! Centro de São Paulo SP.

Fotografia como estrutura de um projeto

A fotografia pode ser utilizada ainda como estrutura básica de um projeto, ou seja, como principal instrumento de pesquisa e de apresentação desta posteriormente. Essa é a utilização mais intensa da fotografia em uma pesquisa.

Por exemplo, o livro Escrituras da Imagem contém trabalhos fotográficos interessantes de vários autores. Numa resenha sobre este livro, a respeito do capítulo A aranha vive daquilo que tece, Suzana Barretto Ribeiro diz: “sobre o cotidiano das artesãs do Jequitinhonha percebe-se claramente a influência dos trabalhos de Mead e Bateson, o envolvimento da pesquisadora/fotógrafa com o assunto e o fascínio exercido pela cultura local. Com o olhar atento para registrar a essência e inventariar espaços e tradições com singeleza, permite uma aproximação que contribui para entender a comunidade. A fotografia torna-se instrumento de uma consciência e testemunha do sentimento essencialmente afetivo que compartilha com o grupo.”

Fotografia como módulo de um projeto

A fotografia pode ser toda uma etapa de um projeto. Como parte de um curso por exemplo. Como a fotografia tem um enorme potencial de empatia, ou seja, de fazer com que quem a vê seja tocado, afetado e passe a refletir sobre determinado assunto, se bem escolhida, pode ser uma ótima opção para educadores prenderem a atenção de alunos. Mas para isso é preciso que, além de ser uma imagem “bonita” e ter relação com o tema, a fotografia deve ainda permitir que o observador identifique-se com ela. Ou seja, uma fotografia bela chama a nossa atenção, mas uma fotografia, para prender a nossa atenção, tem que ter algo interessante. Para Barthes (1984, p.36) a fotografia como experiência só existe quando nos leva a uma aventura. É a fotografia que nos anima, que deixa de ser um simples objeto. Mas como? Algumas fotos nos chamam a atenção, nos causam interesse, mas apenas isso. Porém em algumas fotos há algo que nos afeta”, para Barthes é o Punctum, “esse acaso que, nela, me punge (mas também me mortifica, me fere)”, ou seja, nos causa uma alteração, uma ferida, que tem que ser tratada, ou melhor, resolvida. A fotografia tem esse potencial de iniciar uma experiência mais sólida, que exige reflexão.

Num projeto para uma aula sobre Humanização em Saúde, que seria dada para alunos de pós-graduação, foi utilizada a imagem abaixo, que poderia suscitar o tema da desumanização em laboratórios e ao mesmo tempo poderia parecer muito familiar para diversos alunos presentes. Por quê?

Mãos que buscam o conhecimento
Foto: Mãos que buscam o conhecimento, por Yuri Bittar, 2010.

Um projeto muito interessante é o Fotografite. Trata-se de um projeto sócio-cultural que tem por objetivo acolher crianças e adolescentes em situação de risco social. Utilizando fotografia e grafite, o grafiteiro Alê Anjo e a fotógrafa Stela Murgel pretendem ajudar jovens a mudar sua situação e também mostrar o problema para a sociedade. "O trabalho consiste em usar sprays, canetões, tinta e pincéis para grafitar as fotos em preto e branco ampliadas. Além do resultado estético, a fotografite é uma arte engajada. Seus precursorres querem chamar a atenção para um problema social. É uma forma de alertar a sociedade para a ajuda que precisam essas crianças, que praticamente vivem na lata do lixo de São Paulo. Meu trabalho com Stela é virar essa lata de lixo em cima da sociedade”, avisa o grafiteiro. Já Stela queria mostrar a realidade sem ser agressiva: “Não consigo fazer fotos de um menino de rua usando drogas. O olhar, a forma de vestir diz mais do que a foto dele usando crack”, diz Stela". Veja mais sobre este projeto aqui.

Projetos de fotografia que vão além da fotografia

Alguns projetos podem ainda ter a fotografia como ponto de partida para outros objetivos. No projeto Fotografando pela vida, por exemplo, fotógrafos foram convidados a fotografar e doar sangue no mesmo dia, como uma forma de incentivar a prática fotográfica e também a cidadania.

Concluindo, mas não encerrando

O tema não se esgota facilmente (aceitamos sugestões!). Mas em linhas gerais o que sugerimos é que o pesquisador, o acadêmico, o professor, enfim, o indivíduo que cria projetos e pretende utilizar a fotografia, passe a fazê-lo de forma mais consciente e crítica e, mais ainda, valorize a fotografia autoral!

Referência bibliográfica:

Barthes, Roland, A câmara clara: notas sobre a fotografia, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984

Yuri Bittar
Designer, fotógrafo e historiador
www.yuribittar.com.br