A Miséria Fotográfica
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- Category: Artigos
- Published on Thursday, 13 October 2011 15:26
- Written by yuribittar
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Não meus amigos, não estou falando de nenhum fotógrafo "mão-de-vaca", e nem da situação da fotografia no Brasil. Este título, na verdade, refere-se à atração que grande parte dos fotógrafos, por todo o mundo, e mais ainda por aqui, tem pelo tema social, mais precisamente pela miséria e pelo sofrimento humano. E é isso que quero discutir.

O meu amor pelas misérias, 2010 (por Yuri Bittar)
A minha proposta é incentivar, ou reforçar, a idéia do fotógrafo em tempo integral, ou seja, sugiro à todos, amadores ou profissionais, que fotografem todos os dias, o tempo todo, e não só com as câmeras, mas também com o olhar e a mente. E uma de minhas propostas é andar pela cidade, fotografar a realidade, as composições que vão se formando o tempo todo. E nessas composições, numa cidade como a minha, São Paulo, constantemente estão presentes os moradores de rua, chamados de mendigos, pessoas doentes, crianças, e todo tipo de gente, infelizmente, em situação miserável. Mas um fato é que não fotografamos a miséria só porque ela está lá! Fotografamos também porque a procuramos, vamos ao seu encalço, andamos pela rua procurando “mendigos” pelos cantos.

Miséria Fotográfica, 2011 (por Yuri Bittar)
A foto acima mostra um de meus alunos em plena ação na região da Av. Paulista.
Outro dia um amigo me mostrou as fotos que fez de um morador de rua, não me lembro bem da história, mas ele conversou com o sujeito, e descobriu uma pessoa inteligente e culta, por detrás daquela aparência suja. As fotos ficaram boas, mas a lição de vida foi ainda melhor.
Agora, imagine a cena, um jovem estudante, no início de seu curso de fotografia, então seu professor manda os alunos para a primeira saída fotográfica, cada um deveria fazer fotos na rua, por conta própria. E agora? O que ele faz? Ele vai andar ali por perto, e se depara com a bela igreja da Consolação, com seu estilo “neo-gótico-semi-barroco”. Aquelas abóbodas altas e imponentes na entrada. Ele faz uma foto. Então percebe que há várias pessoas por ali, pessoas em situação de rua, e ele precisa de algo mais em sua foto. Nada melhor do que o incrível contraste entre a riqueza e a miséria não?
Então ele se aproxima de uma mulher, uma “mendiga” não muito velha, apesar de que é difícil imaginar sua idade, ele pergunta se ela faria um favor, de ficar em frente à igreja, para ele fazer uma foto, imediatamente ela pergunta "o que é que eu ganho ?". Aparentemente ela já era modelo profissional, então ele negocia e consegue a foto por um passe.

Moradora de Rua, 1997 (por Yuri Bittar)
Esse jovem era eu e essa foi minha primeira foto na rua. Para todos os efeitos eu a considero minha foto nº1. E porque eu contei essa história toda? Para mostrar o que se passou na minha cabeça. Tirar foto da miséria foi a primeira coisa que pensei, fazer fotos de miseráveis parece ser natural. Mas porque temos essa atração pelo que mais queremos distância?
Ninguém quer ser mendigo, mas que atire a primeira pedra o fotógrafo que nunca fotografou um! Isso, a meu ver, é em parte influência da nossa cultura visual. Qual é o fotógrafo iniciante que não admira Sebastião Salgado. Eu adoro também o Newman Sucupira, que faz uma espécie de foto-glamour de pessoas simples do interior. Além disso, estamos acostumados a ver matérias na TV, sobre a miséria, mendigos, etc.

Miséria Naturalizada, 2010 (por Yuri Bittar)
Acho ainda que a fotografia com temática social faz muito sentido no Brasil, devido a nossa situação de pobreza generalizada. “Pega bem” se preocupar e fazer fotos conscientes. Alguém que tem preocupação com a sociedade, se aprende fotografia, sai fotografando a miséria mesmo. A denúncia tem muito valor. Fazer pensar é importante. A miséria, assim, valoriza a fotografia.

Miséria é miséria, em qualquer canto!, 2011 (por Yuri Bittar)
Sem falar que se andarmos pela cidade, para registrar a realidade, não tem como fugir, eles estão lá! Mesmo que na maior parte do tempo algumas pessoas consigam ignorá-los, por ser dolorosa sua visão, quando vamos fotografar a cidade, abrimos os olhos e a mente, e nossa sensibilidade de fotógrafos deixa passar mais que o normal, enxergamos coisas belas que nunca havíamos percebido, mas também enxergamos a miséria, bem nos olhos. Apenas precisamos ficar atentos para não naturalizar a miséria, para não explorar essas pessoas, e para não usar a fotografia para criar ainda mais desumanização.
Não sou contra fotografar a miséria, pelo contrário, e ainda acho que devemos fotografar e pensar muito mais sobre esse tema. Eu tenho fotografado menos, apesar de continuar andando muito pelas ruas de São Paulo, pois de certa forma olhar essa realidade nos desgasta um pouco. Em 2009 fiz a exposição Visões da Cidade Fragmentada (pode ser vista aqui) que foi a conclusão de dois anos fotografando as pessoas que viviam pelo centro da cidade, na maioria miseráveis.
Yuri Bittar
www.yuribittar.com

















